Curadoria do Prêmio de Produção Crítica em Música da FUNARTE cheira a mofo

Não posso dizer que esperava muito da recente lista do Prêmio de Produção Crítica em Música da Funarte, mas dentre as instituições que premiam monografias, incentivam publicações e projetos de pesquisa, esperava essa ser a mais “neutra” no que diz respeito a gêneros musicais e regiões do Brasil. Em primeiro lugar, não quero de forma alguma desmerecer nenhum dos premiados e nem ter preconceito com seus temas, mas em uma lista de DEZ prêmios de publicação em música, termos 2 sobre Bossa Nova, 1 sobre Camargo Guarnieri, 1 sobre identidade e violão até década de 30, 1 sobre João de Deus de Castro Lobo (1794-1832), 1 sobre Gilberto Mendes, 1 sobre Pixinguinha e 1 sobre o sertanejo Góia, mostra a total desconexão e interesse com a produção musical contemporânea brasileira, além de uma despreocupação em mostrar o amplo espectro da produção crítica musical brasileira. (dos 10 trabalhos, o que excluo dessa lista é o sobre o safonista Casé, disponível online neste blog, que é talvez o único que tem um certo diferencial do perfil dos outros selecionados)

Cadê o maracatu? Cadê o Tecnobrega? Cadê o Funk? O Hip Hop? O Forró? O Rock Nacional? A Música Eletrônica Brasileira? Não é possível que não existissem trabalhos com outras temáticas além a de artistas que, ou já morreram, ou estão perto de (com todo o respeito). E mais dois livros sobre Bossa Nova? A ideia não era premiar para publicar? Por que premiar temas já debatidos inúmeras vezes…? Nem sei dizer quantos livros sobre Bossa Nova existem. Eu adoro Bossa Nova, nada contra, mas é por isso que até hoje em alguns países a ÚNICA referência que existe sobre música brasileira é a Bossa Nova. Nem a gente consegue sair do lugar, como queremos ser vistos de forma diferente? Como queremos que conheçam a nossa música?

Essa seleção lembra também uma antiga e velha discussão que talvez só os meus netos vejam uma mudança real aqui no lento Brasil. A academia musical brasileira ainda pensa que música é só o que o músico toca e o que está na partitura. Essa mentalidade de museu do século XIX, que não reflete em nada os que as novas gerações estão produzindo e nem o que a pesquisa científica sobre música já evoluiu, ainda é uma guerra muito maior do que se imagina. A Etnomusicologia está ai, sempre brigando por “temas atuais versus métodos para Cravo”.

Talvez tudo isso bata forte em mim por ter sido aluna de uma instituição tradicional de música em que o tempo todo me via como uma estranha. Talvez eu esteja mesmo no país errado, mas sempre fui conectada com “o novo”. Comecei com Hip Hop em 1999 quando ninguém falava sobre este estilo e não existia praticamente nenhuma publicação. A pesquisa era feita na rua, com gravador e boa lábia, conversando com aqueles que estavam contruindo essa grande “nação do Hip Hop” que existe hoje. Depois fui pesquisar música eletrônica e ai foi que a coisa complicou mais ainda, porque isso “nem é música” para a maioria dos meus ex-colegas de mestrado. E essa minha briga que começou há praticamente uma década, ao que me parece, pelo resultado desta premiação da FUNARTE, andou muito pouco, se é que andou.

O que eu quero dizer é que, não adianta ter gente interessada em pesquisar temas contemporâneos, se os orgãos que podem permitir e possibilitar estas pesquisas são coordenados por peças de Museu. Não é fácil pesquisar sobre cultura no Brasil, aliás NADA é fácil no Brasil, mas se continuarmos incentivando só aqueles trabalhos que falam do próprio umbigo, de temas somente do passado, daqui a pouco o interesse acadêmico que já é pequeno, vai diminuir mais ainda. E por que publicar temas que só meia dúzia de pessoas da área de música vão ter interesse em ler? Eu acho que todo mundo tem o direito de publicar o que quiser, mas por favor, com o dinheiro do povo, do governo, que tal publicar temas que possam ter um interesse maior da população em geral, dos jovens? Diz pra mim onde um livro sobre “Camargo Guarnieri (1934-1956)” vai parar na mão de outro público que não possíveis alunos das poucas faculdades de música do país, músicos tradicionais e prateleiras de biblioteca pegando poeira?

Posso estar exagerando um pouco, mas é que é difícil assistir a tudo isso. Esse resultado do Prêmio de Produção Crítica em Música da Funarte é uma vergonha e não respeita a nossa diversidade musical. É uma pena. Como disse, esperava mais da Funarte.

 

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