Crônicas do Rio n. 0

Crônica 1 (ou mini-crônica)

Copacabana: 16 horas: 34C de temperatura.

Numa esquina, cantora sentada em um pitoco com um carrinho ao lado vendendo seus discos tocados pelo amplificador preso ao carrinho, tenta explicar aos berros para um vendedor ambulante o que era uma mezzo-soprano.

Crônica 2

Ipanema: 9 horas: 36 C de temperatura.

Num ônibus em direção a praia, um senhor entra, vê uma moça sentada e pergunta:
– Hoje eu quero sentar do lado de uma moça bonita, entrei e vi logo você. Posso me sentar aqui?
Sem sentir malícia na brincadeira do senhor, a moça levanta para ele se sentar na janela. ele continua:
– Eu tenho 80 anos, sou casado há 50, quer dizer, vou fazer 50 anos de casado esse ano. Mas eu sou jovem, minha mulher não gosta de passear tanto, eu gosto. Eu tenho muita energia sabe? Ela não me aguenta.
A moça sorri, e como nota um tom de brincadeira ao invés de reclamação das diferenças que o senhor tinha com sua mulher, pergunta:
-Mas se estão juntos, imagino que sejam felizes com suas diferenças, não?
Ele responde:
– Disso não tenha dúvida.
O momento de saltar do ônibus chega, ela se levanta, diz que foi um prazer, ele agradece, fala mais alguma coisa de longe, ela não escuta, mas sorri fazendo um gesto de tchau com a mão.

Crônica 3

Copabacana: 15:50 horas: 34 C de temperatura.

Rapaz chega em consultório médico particular com consulta marcada para dali 10 minutos. A sala está lotada de pessoas sentadas, tem um tamanho bem pequeno, um único ventilador bem fraco tenta refrescar todas as pessoas que ali esperam atendimento. Ele entra e se apresenta à recepcionista:
– Olá, tenho consulta marcada para às 16h.
A recepcionista responde:
– Olha, ta um pouco atrasado, a doutora chegou um pouco depois e ai acumulou. Tem todas essas pessoas esperando. É melhor você dar uma volta.
Nem um pouco surpreso, pergunta:
– Volto em quanto tempo? Meia hora?
Ela responde aparentemente com vergonha do que iria dizer:
– Tem todas essas pessoas ai na sua frente (eram 5), acho melhor você dar uma volta de 1:30h ou 2h, ela sempre atrasa.
Indignado, porém bastante calmo e educado, o rapaz pergunta:
– Se ela sempre atrasa, porque você marca tanta gente no mesmo horário?
[alguns segundos de silêncio completo]
Ai chega o momento da inversão de valores onde o rapaz fica surpreso com a resposta:
– Se você não queria esperar, tinha que ter avisado quando marcou, ai eu te dizia pra só marcar no primeiro horário, porque aqui sempre se espera duas horas.
Sem querer ser indelicado com  a recepcionista, que obviamente só seguia as regras abusivas da médica, ele diz:
-Pode desmarcar o horário, ligo e remarco em outro momento.
E sai sobre o olhar de reprovação dos outros pacientes e pensando “as pessoas não sabem mesmo se respeitar e exigir seus direitos”.

2 Comentários

Arquivado em cidade

2 Respostas para “Crônicas do Rio n. 0

  1. Debb Querida,
    Deliciosinhas essas suas “Crônicas do Rio”.
    Beijos com saudades!
    MM/K.

    • urbanices

      obrigada Kibe🙂
      a gente cheia meio fazendo etnografia depois que fica fora um tempo, ne? tudo fica meio poético. beijos!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s