A Nova MPB

Hoje quero republicar aqui uma entrevista muito interessante que o Fred Coelho, professor e pesquisador de música, deu para o Diário do Nordeste. Fred sintetizou bem a discussão sobre a “Nova MPB”.

Ruptura e renovação

Publicado em 4 de setembro de 2011 no Diário do Nordeste

Respondendo por e-mail, pesquisador falar das tensões e aproximações, entre a geração da MPB dos anos 60 e os artistas mais jovens

> Ultimamente, muito se tem falado sobre a chamada “Nova MPB”. O que na verdade consiste esse momento? Ele é caracterizado pela ruptura ou pela continuidade?

O que chamamos de “Nova MPB” é a forma como se encontrou para dar conta de uma produção intensa e extensa, em qualidade e quantidade, de uma geração que chegou ao momento maduro de sua produção. A mesma geração que, desde meados dos anos 1990 (e, por isso, um marco sempre evocado é o Manguebeat, quando uma cena musical local como a de Recife incorporou os dados da eletrônica, ganhando projeção nacional fora dos meios já conhecidos de divulgação das grandes gravadoras e da grande mídia) precisou se reinventar dentro da crise da indústria fonográfica e do admirável mundo novo dos novos recursos digitais de gravação, reprodução e circulação da mercadoria música. Uma geração que entendeu o processo e passou a produzir de forma orgânica, juntando forças, trocando ideias e colaborando não apenas para sua carreira, mas para todo um campo de produção e fruição.

>Rotular de “Nova MPB” não estaria reduzindo ou colocando esse momento na sombra da produção já estabelecida?

Creio que a MPB – ou seja, o gênero musical que nasce nos anos 1960 ligado ao universo da canção e comprometido por um lado com as temáticas políticas da época e por outro com a expansão de uma cultura de massas – tornou-se, realmente, um divisor de águas na história da música popular, pois conseguiu sintetizar em um formato potente gêneros anteriores como o samba, o baião, o choro, a bossa nova e o maracatu (a “linha evolutiva”, reivindicada por Caetano Veloso, em 1967) e apontar os diversos caminhos possíveis do que viria depois. É por isso que ainda falamos de MPB mesmo quando hoje, em 2011, falamos da música brasileira contemporânea. A ideia de que canções com qualidade formal e literária que circulam pelo mercado e pela chamada “alta cultura” (a MPB é um dos temas mais frequentes em estudos acadêmicos da área de humanas) devem ser entendidas pela ótica de uma “Nova MPB” vem um pouco daí, desse incontornável marco fundador que nos deu, entre muitos outros, a música de Caetano, Jorge Benjor, Roberto Carlos, Rita Lee, Chico Buarque, Gil, Milton Nascimento, Edu Lobo, Elis Regina, Gal Costa, Tom Zé, Tim Maia… e por aí vai.

>Quando acontece a virada?

Desde a virada do rock brasileiro dos anos 80, uma nova geração de músicos e consumidores de música puderam ouvir novos formatos de canção popular (e agora, pop) que tinham como referência não apenas os gêneros clássicos ou a MPB, mas também o rock independente inglês, o punk rock, o reggae, o funk, a new wave. Assim, se tivesse que apontar um momento de origem dessa “Nova MPB”, eu marcaria não um disco ou uma banda, mas nesse período entre 1985 e 90, em que o rock brasileiro se estabeleceu como gênero e nos forneceu grandes compositores e cancionistas, como Renato Russo, Cazuza, Arnaldo Antunes ou Herbert Vianna (gravados depois por grandes nomes da MPB). Após essa época, vivemos hoje um período em que podemos, tranquilamente, fazer música brasileira a partir de bases internacionais sem sermos questionados se somos imperialistas, alienados ou imitadores do que acontece nos grandes centros do mundo. De certa forma o tropicalismo já havia lançado, mas de forma esporádica e não cotidiana.

>O que caracteriza a recente produção e os artistas que nela desponta?

A principal característica dessa geração musical (ali entre os 25 e os 45 anos) é a sua capacidade de continuar trabalhando o formato-canção e o manter em expansão permanente dentro de uma nova realidade profissional completamente diferente dos anos 60/70/80. Não cedendo a caminhos fáceis ou fórmulas mercadológicas que há em variedade por aí, eles criaram uma espécie de organicidade, seja trabalhando juntos, seja estando em contato permanente com o trabalho do outro. Você percebe ouvindo os discos que eles estão se ouvindo e se comentando. Outro ponto que poucos falam é a presença marcante de músicos-produtores entre as novas bandas e trabalhos. De certa forma, esse cruzamento saudável do músico com o produtor é um sinal desse grupo grande de artistas que tiveram que se entender pro conta própria com a tecnologia, novas formas de gravação, recursos digitais de registro e reprodução. Além, claro, do barateamento de todo processo, o que dispensa gravadoras, grandes recursos financeiros para gravar, etc. Assim, se criou um circuito permanente de colaboração entre músicos, estúdios, compositores, produtores e outros membros do processo musical. Esse espírito colaborativo, associado a um entendimento produtivo dos novos meios digitais, é o chão para que a canção popular volte ao centro da nossa discussão musical, em novas bases, em novos valores e novas propostas.

>Muito se falou no fim da canção. Ela acabou mesmo ou se transformou?

Bem, a frase é um pouco radical, no embalo crítico do texto, mas o que afirmo é que o gênero canção, vinculada ao universo do “popular”, isto é, dos valores ligados a uma ideia de “nacional” e de “cultura” que permeava a geração dos anos 60, foi deslocada para outras praias a partir do anos 80. Assim, chamo atenção para o fato de que, quando no século XXI começa a circular a discussão (vazia) do fim da canção, é justamente o momento em que os trabalhos das gerações dos anos 60 começam a perder fôlego e dar lugar aos trabalhos da geração que se formou ouvindo Chico Buarque e Titãs, ou Gilberto Gil e Racionais MCs, além de música eletrônica, Nirvana, axé music. Assim, a crise da canção é, também, a crise da geração criadora dos anos 60, que ultimamente soltam trabalhos cada vez mais esparsos e de qualidade duvidosa – com as exceções de Caetano Veloso, Chico Buarque ou Tom Zé. O que acabou foi a garantia de que os poetas-compositores dos anos 60 nos bastariam eternamente para falarmos da qualidade musical do Brasil.

*Entrevista realizada por Ana Cecília Soares, repórter.

* Fred Coelho escreve no blog Objeto Sim, Objeto Não, que tem sempre posts extremamente interessantes. Eu sou fã. : – )

 

 

 

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