O Brasil tem cara

Eu sempre achei que brasileiro não tinha cara, que não era identificado pelo tipo físico, tanta é a variedade de tipos que existem no país. É possível identificar um brasileiro no exterior sendo também brasileiro, principalmente o turista, porque pela roupa logo se nota, e também pelo jeito de andar. Mas foi aqui em Portugal que eu descobri que brasileiro tinha cara.

Eu não sou a pessoa mais  cheia de brasilidade, tenho alguns países dentro mim, algumas culturas que gosto de dialogar. Também não tenho o tipo mais “carioca”, cidade que morei a maior parte da minha vida. Mas é aquela coisa de família, ne? Só eu posso falar mal do Rio e do Brasil.

De qualquer forma, Portugal é o único país estrangeiro em que estive, que de fato as pessoas tem como saber que eu sou brasileira por causa do sotaque do meu português. Sempre brinquei com estas coisas da nacionalidade e origem, justamente por não ser tão óbvia a minha aparência, às vezes vista como italiana, espanhola, mas já houve casos de acharem que eu tinha cara de iraniana! Pois… Aqui não tem como brincar tanto com a nacionalidade (e nem sempre é fácil ser brasileiro no estrangeiro). Quer dizer, eu posso brincar, posso falar dos meus “outros países”, abafar um pouco o Brasil como defesa em situações, mesmo contra a minha vontade, mas o que vai na frente é sempre o sotaque brasileiro. E as reações em sua grande maioria são positivas, ou assim percebo.

Mas ao primeiro contato, a coisa sempre acontece de uma forma muito peculiar e sempre sempre igual. Descrevo. Conheço alguém que não sabe de onde eu vim, notam logo que meu sotaque não é de Portugal, ai perguntam de onde eu sou. Eu acho que fica claro que meu sotaque é do Brasil, mas perguntam mesmo assim. Digo sempre que sou meio brasileira, meio italiana. A resposta é sempre a mesma: “Logo nota-se, apesar do sotaque não tem cara de brasileira, tem um tipo mesmo europeu, não parece nada com uma brasileira!”.

Eu levei um tempo pra entender que no fundo ao ouvir algo assim estavam dizendo que existe sim uma “cara de brasileiro”, ao menos em Portugal. Ainda não sei muito bem qual é a “cara de brasileiro”, nem ao menos quero entrar nessa discussão, que pode ir por vias as quais não tenho interesse em dialogar e que podem acabar num debate com um peso longe do objetivo deste post. O que eu quero dizer mesmo é que foi algo bastante inesperado pra mim descobrir que a ideia de que “brasileiro não tem cara (ou tem todas as caras do mundo)” não é um discurso mundial como pensava que fosse.

O mais divertido é também pensar como a gente chega aqui achando que todos os portugueses tem cara de brasileiro e como tomamos sustos constantes com pessoas EXATAMENTE iguais a outras que conhecemos no Brasil.

4 Comentários

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4 Respostas para “O Brasil tem cara

  1. Oi Debora,

    Então, esse negócio que de brasileiro tem cara é muito interessante, e eu muitas vezes me vi numa situação meio “mindfuck” pras pessoas que tentavam acertar minha nacionalidade.

    Não posso dizer como seria visto em Portugal, mas acho que muito provavelmente acertariam minha brasilidade dentro do meu jeito estranho/gringo de ser. E daí fico pensando se não seria a mesma coisa em Moçambique ou outro país lusófono. Minha única certeza é de que em Timor eu me daria bem😛

    Mas sem dúvida é divertido brincar com esse negócio de nacionalidades. Em muitas das minhas viagens as pessoas sempre perguntam de onde eu sou. Aconteceu em Montréal, quando eu estava numa situação conversando com um amigo francês, e o tiozinho do táxi perguntou se a gente tava voltando pra França e onde a gente morava.

    Talvez a vez mais curiosa tenha sido na Tailândia, eu estava com um grupo de filipinos amigos meus em um evento e uma senhora da Nigéria pediu para “os filipinos se juntarem” pois ela queria tirar uma foto. Eu falei que era brasileiro, e ela: “ah, mas você tem uma cara de asiático sim!”. Muita gente do evento também me perguntava isso. E um pouco antes, no vôo pra Tailândia, a comissária de bordo da Qatar Airlines pergunta: “Are you mixed?” como quem queria dizer: “Eu sei que esse voo é do Brasil, mas não tô entendendo bem quem você é…”

    Eu acho que a fluência em inglês diz muito a esse respeito (e isso porque todas essas situações se deram em inglês, só uma em francês), porque os brasileiros em geral têm sotaque bem característico. Outra coisa curiosa é que todas as vezes que me perguntaram de onde eu era, e eu falava que era do Brasil, a pergunta seguinte era: “but you were raised abroad, right?”

    Enfim, brasileiros sempre chocando com sua aparência diversificada mundo afora, menos em Portugal. Eles pelo visto sabem mais do que os próprios brasileiros o que é essa brasilidade toda dentro dessa gente.

    Besos!

  2. urbanices

    pois, seus relatos são super interessantes, Dieguito!🙂

    Acho que a coisa do sotaque brasileiro é algo marcante, muitas vezes por uma via também perigosa, como se não se esperasse que pudesse haver alguém que falasse tão bem. No fundo acho que a grande maioria das pessoas sente uma imediata necessidade de encaixar valores e ideias dentro das suas caixinhas pré-determinadas. E acho que o Brasil bagunça um pouco isso, mas também acho que o brasileiro tem um pré-disposição de estabelecer um discurso universalista sobre sua identidade e cultura, como sempre sendo de uma identidade “múltipla”.

    Acho que muitos portugueses tem uma ideia já formada do que é um brasileiro, acho que isso também pode variar de pessoa pra pessoa, de cidade pra cidade, de classe também (pq, não?).

    Mas o curioso mesmo é esse discurso de que existe uma “cara de brasileiro”, mesmo que os valores, significados e discursos acerca disso variem. Acho que pelo mesmo modo que o seu sotaque (ou ausência de) choca, choca também ver alguém que não condiz com a ideia de “brasileiro em Portugal”, então no fundo a aparência choca por aqui também.

    beijos, meu timorense favorito!🙂

  3. Oi debora, estou a traduzir o post (O que é ser brasileiro?) do fernando sapelli no qual ele se refere à este seu blog. Por isso veio dar uma olhada.
    Eu acho muito engraçada essa coisa de cara, de jeito de brasileiro no exterior. No meu caso sera a terceira vez que iremos passar as ferias em portugal (Tavira) e dà sempre no mesmo: todo mundo acha que eu sou brasileiro (pelo jeito de falar é claro) e , desculpe dizer assim, me orgulha demais !!! Dividi a vida de brasileiros também por muito tempo quando morava em paris, e dava no mesmo, os franceses achavam que eu era brasileiro (incorporei a personagem demais !!) e quando passei pela região amapa, fiz amizade com uma familia de garimpeiros bem brabos e fiz de tudo par eles acharem que era de Curitiba (nunca coloquei um pé nesta cidade !!) para eles entender que se eu tinha sotaque estranho as vezes é por que era de Santa Catarina, terra de alemão, e então brasileiro, mas gringo nunca!! achei que ia ficar mais tranqüilo assim. e ficou, ficou tanto que até hoje acho que foi a minha melhor interpretação !!!
    Tudo isso para dizer que para mim, cara de brasileiro nao existe, nem cara de francês ou de alemão !!
    que nem o diego disse: tem ele cara de filipino ?? tudo isso é um besteirol e uma prova de racismo sim da parte dessas pessoas !! Neste nosso mundo global, muito esperto aquele que pode desvendar os segredos das nacionalidades !! e ainda bem !!!

    • urbanices

      Olá Juan,
      acredite se quiser, só vi este teu comentário no wordpress agora, mais de um ano depois! Já nem lembro muito bem desse post, tem sido uma longa jornada aqui em Portugal desde 2011, que passa por várias fases. A “cara de brasileiro” é um discurso muito recorrente aqui em Lisboa, você tem ou não “cara de brasileiro”, ou “é brasileiro, mas você tem um ar tão europeu!”. Existe uma “cara de brasileiro” que é um aspecto cultural daqui, um imaginário da “cara de brasileiro”, o que não quer dizer que exista uma cara de brasileiro, mas um discurso de uma cara de brasileiro. Com o tempo a gente descobre que a gente sai do Brasil e vai pra outro país e é “estrangeiro” ou “imigrante”, mas em Portugal você é “brasileiro”, é outra coisa, difícil explicar, só vivendo isso mesmo, de verdade. Coisas que com o tempo aprende-se a conviver e compreender e lidar. Enfim, um dia, aqui em Portugal, ou no Brasil, conversamos mais sobre isso🙂 Eu adoro viver em Portugal, mesmo tendo passado por alguns percalços😉
      abraços

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