“mini tributo” à Santuza Cambraia Naves

Conheci a Santuza durante a minha graduação na PUC-Rio, entre os anos de 1997 e 2000. Tinha 19 anos. O departamento de Ciências Sociais e Política da PUC-Rio vivia um momento muito especial, tinha acabado de se reerguer e ao que me lembro, as primeiras “novas” turmas formaram-se dois ou três anos antes de mim, ainda não era o melhor curso de ciências sociais do estado do Rio de Janeiro (desculpa lá, como dizem por aqui, mas tenho orgulho disso! :p). A gente vivia na “casinha” do departamento como uma grande família, mesmo pequena em número. Ali todo mundo sabia o nome de todo mundo e as relações eram bem próximas.

Foi nessa atmosfera que conheci a Santuza, minha professora de Antropologia da Música e de tantas outras disciplinas que fiz com ela relacionadas a arte. Já não fossem os temas das aulas profundamente interessantes, Santuza tinha um modo muito próprio de dar aulas, um tom de voz muito particular também, uma risada e um sorriso contagiante e, claro, um cigarrinho fumado de um jeito muito Santuza, que entrava ali na aula como parte necessária do cenário. Sem o cigarro não era a mesma coisa, não era Santuza. E tudo isso acontecia no ar mais tranquilo possível… Ir para a aula da Santuza era como entrar num atmosfera à parte.

Eu escolhi a minha orientadora antes de escolher o tema da minha monografia. Geralmente você faz um semestre de projeto e depois um semestre de monografia. No projeto não sabia bem o que queria fazer. Meu projeto acabou sendo ligado à crítica de cultura popular. Quando chegou a hora de escrever, eu resolvi mudar de tema radicalmente, eu queria fazer a monografia sobre o Hip Hop no Rio de Janeiro.

Já se passou muito tempo, doze anos que essa monografia foi escrita, e escrita com muito amor e dedicação, mas certamente com muito apoio e entusiasmo da minha orientadora, que sempre me deu espaço para experimentar um tema que era tão novo para ela quanto pra mim, e também muito distante do cotidiano musical das duas. A empolgação da Santuza com a cena Hip Hop, com a poesia dos raps, com as letras… era de animar qualquer um! Lembro com tanto carinho da gente analisando as letras dos raps… Santuza ficou com meu CD do Fugees emprestado durante meses, fascinada por aquela música… (nessa época a produção nacional era bem pequena e a ponte com o rap americano era ainda maior, ainda mais sem a internet sendo o que é hoje em dia).

E esse é um aspecto muito importante da Santuza como pesquisadora, academica e professora: a abertura que tinha para qualquer tema e para o novo. Criamos uma relação de diálogo musical muito nesse sentido e por todos esses anos tínhamos sempre o momento “Santuza, olha o que eu descobri!”. E ela sempre aberta, achando tudo “maravilhoso”!

Como orientadora, e não digo só na graduação, porque a Santuza tem sido minha orientadora e interlocutora durante todos esses anos, ela parecia sempre acreditar mais em mim do que eu mesma, sabia mesmo incentivar. Muitos passos que dei na área acadêmica relacionados à música foi pelo seu incentivo, porque eu via ali no olhar dela, no que dizia, uma grande fé naquilo que eu estava me propondo a fazer. Ela dizia assim “Vamos lá, Debora, vamos em frente!”. E assim foi, orientando sempre com muito carinho, muito entusiasmo e sempre dando muito espaço. E isso é mais importante para a minha formação como pesquisadora do que parece. Com a Santuza eu aprendi a esperar o momento em que eu saberia que decisão tomar no rumo das minhas pesquisas com tranquilidade, a “navegar no desconhecido” sabendo que alguma coisa sairia dali, em acreditar que eu em algum momento iria saber exatamente o que fazer ou o rumo a seguir. E isso veio muito da confiança que eu via que ela tinha em mim e no meu trabalho.

Quando eu decidi fazer meu doutorado fora do Brasil ao invés de fazer na PUC-Rio, uma decisão profundamente difícil para mim, tive a Santuza do meu lado, como sempre. Não só apoiou a minha decisão, como escreveu uma carta de recomendação em que fico emociada cada vez que leio. Generosa. Santuza era uma alma generosa e sabia exatamente o que dizer ou fazer para estimular seus alunos, que no final acabavam sendo todos um pouco filhos dela, tamanho era o carinho que ela tratava e cuidava de todos. Ela nunca soube disso, mas eu sempre me referi a ela como a minha “guru” (talvez só minha mãe soubesse disso…).  Todos os meus passos na área da música, acadêmicos ou não, foram sempre dialogados com ela, sempre contaram com seu apoio.

Estou aqui a fazer um esforço para falar da Santuza como “professora” , mas confesso que é difícil só falar da professora, porque a Santuza era bem mais que isso pra mim. Uma madrinha? Não sei dizer. A Santuza era a Santuza.

E tem uma história que sempre conto, mais no aspecto pessoal que até hoje me fascina, porque eu lembro examente do momento em que ela começou. Eu lembro até hoje o exato momento em que a Santuza no final de uma aula me chamou e disse, não exatamente com estas palavras, mas disse: “Debora, quero que você conheça a Janet Gunter, uma americana fazendo intercâmbio aqui na PUC. Acho que vocês vão se dar bem”. Eu até hoje não sei bem porque ela chegou nessa conclusão, só sei que ela acertou em cheio.  E acho também engraçado como eu consigo lembrar exatamente da cara que ela fez quando me disse isso e da minha surpresa. Janet e eu somos amigas até hoje, grandes  amigas. Mesmo com a gente fazendo as coisas mais diferentes e sempre em processo de mudança, não só de vida, como de continente, continuamos amigas, uma amizade que faz o mesmo sentido que fazia quando começou, mesmo com todas as metamorfoses de trajetória. E sem prolongar essa história, pra Janet não ficar sem graça, naquele momento, no meu curso de graduação, tudo que eu precisava era conhecer uma americana “revoltada com os EUA”, fez toda a diferença na minha vida, foi um divisor de águas esse momento e essa amizade que surgiu com um empurrãozinho dela…

E isso me lembra um dos últimos momentos marcantes da nossa troca de entusiasmo sobre a música. Fizemos um encontro no Rio, eu, Janet, Santuza e Paulo Henriques Britto, seu grande companheiro de vida, há dois anos atrás.  Conversando sobre música e sobre artistas novos, perguntamos à Santuza se ela conhecia o Kuduro, ela disse que não, então resolvemos colocar um vídeo do Buraka Som Sistema, o YA!

Nunca vou esquecer da gente mostrando o vídeo para a Santuza e o Paulo, e ela achando aquilo fabuloso, quando de repente toda a aparelhagem de som  da casa desliga com a potência do som e todos caímos na gargalhada… Sempre quando lembro disso me vem um sorriso imediato, porque lembro com um enorme carinho a expressão de entusiasmo da Santuza em ouvir algo novo, em experimentar novos sons… E isso será sempre  uma grande inspiração pra mim, pra vida toda.

Conhecer a Santuza nessa vida… Oh sorte!😀

5 Comentários

Arquivado em música

5 Respostas para ““mini tributo” à Santuza Cambraia Naves

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  3. ROBERTO naves Benfica

    Fantástico e confortante.

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