Obrigada, Santuza.

[Este guest post foi escrito pela Janet Gunter]

Demorei para sentar e escrever isso. Perder a Santuza subitamente foi como perder uma floresta, uma floresta viva que conheci há mais duma década – que sabendo que ela ainda existe, ajuda-me a respirar, sentir-me bem neste mundo. O escritor Wallace Stegner escreveu:

 “The reminder and the reassurance that [wilderness] is still there is good for our spiritual health even if we never once in ten years set foot in it.”

Vou falar da minha chegada ao cantinho da floresta da Gávea que era a Santuza para mim.

Quando eu cheguei no Brasil para uma curta estadia na PUC-RIO, eu já tinha o email “expresso2222” – o que atraiu-me à lingua portuguesa, ao país-continente, foi desde o início a música, que eu consumia na minha adolescência através dos LPs do meu pai. Ele próprio, puro gringo como eu, pegou “o bicho” nos anos 60, tocando bossa nova, e viajando pelo Brasil como estudante.

Eu quase que idolatrava o Gil e o Milton.

Vi para o meu espanto e agrado!, num pano de fundo de cursos com títulos inóspitos como “História do Brasil B” que alguém ensinava um curso chamado “Da bossa nova à tropicália”. Registei-me como reflexo.

Encontrei naquela aula, ensinada pela Santuza Cambraia Naves, uma razão para enfrentar o trânsito da Copacabana para a Gávea. Para não desistir da PUC (melhor descrito por uma outra gringa mais recente) – o Brasil, e a cidade, já tinha mais o que oferecer.

Sinto uma necessidade tremenda de descrever a Santuza na sala de aula, a sua aura, o seu carinho delicado conosco, e o seu saborear da música. Lembro dela estar rodeada por alunos – principalmente alunas – que ajudavam sempre com o aparelho de som, com a prepação da aula. (Isso num ambiente geral de “preferia estar na praia”.) Tinhamos uma daquelas salas com janelas que davam para a selva luxuosa do morro. Ela tecia histórias, criou o contexto da música através de citações, impressões, documentos… fumava cigarros, coisa que na altura achei divertidíssimo, mas foi medida do prazer tangível da música. Prazer que mais que transmitia para os alunos.

Ela tinha um jeito ligeiro, mas não superficial. A sua leveza e amor pela vida andavam juntos, e conseguiam ligar pessoas numa maneira quase tão sútil que na altura nem notei. A minha melhor amiga do Rio conheci através da Santuza, a criadora deste blog.

Lembro de frequentar um projeto comunitário no fundo do fundo de Nitéroi – para conhecer uma outra realidade longe da zona sul, conheci mulheres empenhadas e lutadoras enfrentando mil e um desafios. Mas foi através da Santuza que consegui convite para o Candongueiro, mesmo ao lado, para ver a Velha Guarda da Mangueira num ambiente inesquecível.

Olhando para trás, passado mais duma década, devo muito à Santuza. A influência dela foi ligeira, mas de certo modo decisiva. Não estudei música. Dei voltas ao mundo, ao ex-império português, puxada inexplicavelmente num lado para a escuridão, mas de outro lado para a luta, para testemunhar a violência daqueles que são negados vidas dignas, mas que recusam desistir. Este trabalho levou-me para São Paulo para meses e meses ao longo dos anos, mas tive um receio de voltar ao Rio e confrontar-me com a felicidade daquela floresta.

Afinal como influenciou-me? Ela tinha conseguido alimentar em mim primeiro um amor pela lingua portuguesa, e um amor nascente pelo criativo, pelo generativo, que sempre existe também nos lugares com injustiça enraizada. Quando afinal fui reunida com a Santuza há dois anos na Páscoa, foi como estar reunida com uma parte da mim mesma, a parte que quer viver. Só viver e saborear.

Foi depois desta primeira volta para o Rio em 10 anos que fiquei muito grata em estar reunida com a Santuza, em que redescobri a obra do Caetano. Particularmente “Transa” – como vivo em Londres, mas sinto o meu ser cada vez mais espalhadado pelo mundo, este álbum ressoa.

Meu percurso de vida só talvez visto por trás será um concept album. No momento sinto que existo num fluxo engraçado de Mp3. Mas tenho certeza duma coisa: Santuza não foi uma mera faixa. Se houver capa, ela foi daquelas influências-bricoleur que aparecerá, talvez no meio duma floresta, com seu sorriso sereno.

Por Janet Gunter

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